Esclarecimentos acerca do Levantamento dos Óbitos nos Manicômios da região de Sorocaba

Em resposta aos questionamentos feitos pelo diretor de um dos manicômios de Sorocaba, Dr. Eduardo Zacharias, em reportagem publicada no jornal “Bom Dia”, de 29 de janeiro de 2011, seguem alguns esclarecimentos. Clicando aqui você pode ter acesso à versão on-line da reportagem citada.

A pesquisa sobre as mortes nos hospitais psiquiátricos de Sorocaba e região é feita com base nos dados do SIM (Sistema de Informações sobre Mortalidade), que cria um banco de dados a partir das Declarações de Óbito, repassadas pelos municípios aos Estados e por estes à Base de Dados Nacional. O banco de dados pode ser acessado pelo link: http://tabnet.datasus.gov.br/tabdata/sim/dados/cid10_indice.htm . Embora o acesso a estes dados seja fácil, seu manejo é demorado, em função de termos aproximadamente um milhão de mortes no estado de São Paulo no período 2006-2009.

Os dados referentes aos manicômios de Sorocaba e Salto de Pirapora em 2006 e 2007 já estavam consolidados e foram apresentados no X Encontro Regional da Associação Brasileira de Psicologia Social, realizado em Taubaté e no Encontro do Fórum Paulista de Luta Antimanicomial, realizado em Sorocaba, nos meses de outubro e novembro respectivamente, este último com a presença da coordenadora de Saúde Mental do município. Em janeiro de 2011, porém, foram disponibilizados os dados referentes a 2008 e 2009, mais recentes e, portanto, de importância fundamental para a análise. Decidimos incorporar estes dados na pesquisa, o que está sendo feito no presente momento, por meio do software de uso livre Epi-Info. Os dados já coletados para o biênio 2008-9 são os relativos ao número total de mortes, sexo e idade dos internos dos manicômios de Sorocaba. Faltam ainda os dados referentes às causas básicas de morte em Sorocaba e o conjunto dos dados para os manicômios das outras cidades da região.

A divulgação de dados preliminares por parte do FLAMAS se dá em razão da absoluta urgência de se discutir a situação que ocorre no município. Não faz sentido esperarmos a análise completa dos dados e sua publicação em periódicos, processo que demora de dois a três anos, se morrem em média dez internos de manicômios por mês na região. Ou seja, até a publicação da pesquisa, teríamos mais de trezentos mortos a mais, algo que pode ser minimizado, se houver um debate sério sobre o tema, com a participação do poder público e dos gestores dos manicômios. A coordenadora de saúde mental do município se predispôs a investigar o interesse para este debate por parte destes gestores, mas até o momento não obtivemos resposta ao pedido.

Em relação à análise que pode ser feita até o presente momento dos dados, no entanto, alguns elementos chamam a atenção:

– a baixa média de idade dos mortos. Segundo a literatura científica, os pacientes psiquiátricos tem uma expectativa de vida de 8 a 10 anos menor do que a da população em geral. Se considerarmos a expectativa de vida atual no Brasil (de 69, 4 anos para os homens e de 77 anos para as mulheres), seria esperada uma expectativa de vida de 60 anos para pacientes psiquiátricos homens e de 68 para as mulheres, significativamente acima dos dados já consolidados da pesquisa por nós realizada, que mostra uma média de 48 anos de morte para os internos do sexo masculino e de 51 para as do sexo feminino em Sorocaba.

– o elevado número de mortes por número de leitos nos manicômios da região, se comparado aos de outras regiões do Estado de São Paulo. Os dois maiores hospitais psiquiátricos do Estado, o Instituto Bairral, de Itapira, e a Clínica Sayão, de Araras, tem, respectivamente 6 e 7 mortes para cada 100 leitos no período 2006-2009, contra 20 do Hospital Psiquiátrico Vera Cruz de Sorocaba, instituição dirigida pelo Dr Eduardo Zacharias.

– o elevado número de mortes por causas evitáveis ou mal-esclarecidas. O infarto, por exemplo, principal causa de morte nos manicômios de Sorocaba, atingindo quase um quarto dos pacientes com óbito no biênio 2006-2007, não é citado como causa mais prevalente de morte em pacientes psiquiátricos na bibliografia sobre o tema. Isto levantou suspeitas por parte do FLAMAS de que as mortes ocorridas não são muitas vezes adequadamente investigadas. Chama a atenção também o grande número de pacientes com morte por pneumonia (14 % deles, no biênio 2006-7). Em alguns esta doença assume forma epidêmica, como é o caso das 13 mortes por pneumonia no intervalo de apenas dois meses e meio, ocorridas no Hospital Psiquiátrico Vera Cruz entre 7 de maio e 18 de julho de 2008.

Finalmente, o FLAMAS repudia publicamente a declaração de outro diretor do Manicômio Vera Cruz, de que “se estes pacientes não estivessem no instituição estariam nas ruas, onde o índice de mortes certamente é bem maior”. A afirmação mostra um total desconhecimento da proposta da Reforma Psiquiátrica brasileira, que não é a de abandono dos pacientes, mas da criação de serviços substitutivos eficientes, que contribuam para a inclusão efetiva destes, como é o caso dos Centros de Atenção Psicossocial e das Residências Terapêuticas, instituições das quais Sorocaba ainda é bastante carente.

5 Respostas

  1. Tenho 45 anos minha filha 07. ambos de ansiedade generalizada…Moro em sorocaba e o que vejo e que sao POUQUISSIMOS os profissionais que realmente atende com prazer e amor a profissão.. Falo em alto e bom tom , pois sei bem o que é a SAUDE em SOROCABA. antes de encerrar vale lembra que VITOR LIPPI .. PREFEITO DA CIDADE É MEDICO. E os PAs so melhoraram na epoca de eleição. ACORDA PESSOAL … TEM QUE TRABALHAR E NAO IR P HOSPITAL so para esquentar cadeira…… Essas mortes sao por descaso mesmo. Aqui nessa cidade fala muito e age pouco

  2. Cara Lenir,

    Antes de mais nada me solidarizo com sua perda.

    Como ex-trabalhador da área de Saúde Mental e coordenador da pesquisa, gostaria de deixar claro que não menosprezamos o esforço e a dedicação dos que trabalham nos hospitais psiquiátricos. Não consideramos de forma alguma que estes profissionais sejam incompetentes ou mal-intencionadas, mas sim que estão trabalhando sob uma perspectiva ultrapassada do que deveria ser o cuidado em Saúde Mental

    O problema real que a senhora aponta – de discriminação aos pacientes psiquiátricos nos Hospitais Gerais – se dá justamente por causa do modelo de tratamento baseado na segregação destes pacientes. Um exemplo: se todas as pessoas com Síndrome de Down fossem excluídas do convívio com os demais, o que provavelmente ocorreria é que o preconceito a elas aumentaria muito. Da mesma forma, se, ao invés de termos leitos psiquiáticos em instituições fechadas como os manicômios, tivéssemos um número maior de leitos psiquiátricos em hospitais gerais, que é uma das propostas que defendemos, estes mesmos pacientes seriam muito melhor atendidos em relação aos seus problemas de saúde.
    O convívio maior com a sociedade também proporcionaria a possibilidade destas pessoas serem aceitas em sua diferença. Quando vejo pacientes com Síndrome de Down trabalhando como empacotadores no Walmart de Sorocaba sempre fico me perguntando: por que não podemos ser uma sociedade inclusiva também com os usuários de Saúde Mental ?

    Abraço,
    Marcos Garcia

  3. É fácil para os que apenas vivem de estatísticas menosprezar o trabalho que “alguns” Hospitais Psiquiátricos desempenham com seus pacientes, quando não tem o problema na própria família.

    Antes de julgarem, deveriam ao menos, realizar uma pesquisa mais profunda, como um estágio, de um mês por exemplo, DENTRO dessas instituições para assim então, poderem avaliar todas as dificuldades existentes.

    Meu irmão esteve internado no Hospital Psiquiátrico Teixeira Lima, na minha opinião, o melhor da região de Sorocaba e venho a falecer. Mas não faleceu por maus tratos do Hospital Psiquiátrico que sempre o atendeu MUITO BEM, e sim por NEGLIGÊNCIA E OMISSÃO DE SOCORRO da Santa Casa de Sorocaba, após 3 encaminhamentos do Hospital Psiquiatrico, para INTERNAÇÃO e TRATAMENTO MÉDICO.
    Os dois primeiros encaminhamentos para Santa Casa, foram para tratar um DERRAME PLEURAL, ACOMPANHADO DE ABDOMEN DISTENDIDO, sendo apenas medicado e LIBERADO pela DRA INEZ GONZALES no pronto socorro da Santa Casa, MESMO TENDO EM MÃOS RX TORAX APONTANDO O PROBLEMA .
    O último encaminhamento, com detalhes do seu estado de saúde, que por sinal era gravíssimo, apresentando pressão arterial baixa e dispnéia, meu irmão foi ABANDONADO em uma maca duas horas desde que chegou até sua morte, onde foi tratado com PRECONCEITO pelas equipes do Pronto Socorro da Santa Casa, justamente por ser um PACIENTE PSIQUIÁTRICO. Segundo o Médico de plantão DR. SÉRGIO, não havia vaga na Emergência para internar o meu irmão. Os três encaminhamentos do meu irmão ao Pronto Socorro da Santa Casa de Sorocaba foram feitos no último mês de Janeiro, vindo a falecer em 25/Jan/2011

    Será que todas as mortes anunciadas nos Hospitais Psiquiátricos são única e exclusivamente por negligência no atendimento aos seus pacientes?????

    Porque não criam um Fórum para verificarem a MORTANDADE DESENFREADA que ocorre NO PRONTO SOCORRO DA SANTA CASA DE SOROCABA ???

    Uma Carta Denúncia com todos os detalhes da OMISSÃO DE SOCORRO dos médicos que atenderam meu irmão na Santa Casa de Sorocaba, foi encaminhada ao Ministério Público no dia 1º de Março, para averiguarem os ASSASSINATOS cometidos nesta Unidade.

    Devem sim, HUMANIZAR TODOS OS HOSPITAIS e haver uma política de tratamento médico conjunta e digna para todos!!!!

    Lenir Reis Monteiro

    • Sr. Marcos,

      Acredito que a proposta que o Senhor defende, é muito importante para melhoria de um modo geral ao tratamento dos pacientes psiquiátricos, porém, não devemos esquecer que esse PRECONCEITO ao qual me referi, veio justamente dos próprios profissionais da saúde de um Hospital Geral no caso, a Santa Casa de Sorocaba. O que é INADMISSÍVEL! Então há de ser apurado com muito cuidado e rigor exatamente o que ocorre “por trás dessas mortes” nos Hospitais Psiquiátricos, não apenas se orientar pelos indicativos numéricos.

      Obrigada pela atenção!

  4. Horror…

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